Arraial da Justiça em Porto Calvo/AL vira modelo de governança no STJ e CNJ
O desenvolvimento humano e social não é um tema alheio à jurisdição — é a sua própria finalidade. Foi sob essa premissa que o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Carlos Augusto Pires Brandão, proferiu, na última sexta-feira (14), no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a palestra “Justiça Socioambiental, Economia Verde e o Papel do Judiciário”, no âmbito do programa Judiciário Sustentável.
A tese
central apresentada no CNJ defende que, aonde o Estado não chega, o direito
permanece uma promessa. Contudo, quando a Justiça se articula em rede, a
cidadania se transforma em serviço público efetivo, geração de renda e dignidade.
O
Judiciário como nó articulador
Segundo o
ministro, o Judiciário reúne quatro atributos singulares que nenhum outro ator
estatal detém simultaneamente:
Capilaridade: presença em praticamente todos os municípios do país.
Poder de
Convocação: capacidade de reunir entes que raramente
dialogam no mesmo espaço.
Capacidade
de Vinculação: aptidão para converter consensos e acordos em
títulos executivos.
Permanência: atuação contínua que subsiste às alternâncias de governos.
Com base
nesses pilares, o ministro propôs que o Judiciário assuma o papel de
articulador principal das redes colaborativas de governança — deixando de se
posicionar no vértice de uma pirâmide para atuar no centro da cooperação
institucional.
Impacto real:
8 mil beneficiados no litoral Norte de Alagoas
A
demonstração prática dessa tese vem do litoral norte alagoano. Idealizado pelos
ministros Humberto Martins, Marluce Caldas e Carlos Pires Brandão, o Arraial
da Justiça e Cidadania realizou sua primeira edição em Porto Calvo, entre
os dias 12 e 15 de maio de 2026.
Sob a
liderança do Dr. Geraldo Pirauá — responsável pela Comissão de Instalação do
Projeto Porto Calvo Cidade Educadora, ao lado dos secretários municipais
Emanuel Valença, Allef Santos e Rodolfo —, a ação alcançou mais de 8 mil
pessoas em quatro dias de atendimento contínuo.
Cultura, balonismo
e nova matriz econômica
Além do
atendimento jurídico e social, a iniciativa atuou na revitalização econômica da
região. Durante as noites do evento, o Centro Histórico de Porto Calvo recebeu
apresentações culturais, com destaque para a encenação da peça “O Julgamento
de Calabar no Tribunal Celestial”, resgatando a memória do Brasil holandês
e evidenciando o potencial do casario colonial como ativo econômico.
A
estratégia integra o patrimônio histórico ao turismo de aventura, com a
introdução do balonismo sobre vales e canaviais. A proposta visa
capturar o fluxo turístico de destinos vizinhos, como Maragogi e São Miguel dos
Milagres, retesando renda no município. Como ressaltou a prefeita Eronita
Sposito, trata-se de uma cidade “rica em história e com grande potencial
turístico”, criando alternativas de emprego onde a monocultura da cana já não
responde às necessidades locais.
A Carta de
Porto Calvo
O evento
culminou na leitura da Carta de Porto Calvo, documento de princípios
firmado pelas instituições participantes, lido pela atriz Glória Pires e pelo
compositor Orlando Moraes.
Conforme
ressaltou o ministro Carlos Pires Brandão, o documento consolida uma
"gramática ética compartilhada", transformando a ação comunitária em
política pública permanente. Ao encerrar sua reflexão no CNJ, o ministro
sintetizou a diretriz para os novos tempos:
“A economia
verde só será verde se for justa, e só será justa se for dialogada. Decisões
impostas sobre as comunidades retornam ao tribunal; acordos construídos com
elas se cumprem e se convertem em desenvolvimento.”
