De Harvard para AL; mapa holandês raríssimo coloca Chã Preta no centro da história da resistência negra no Brasil
CHÃ PRETA, AL – O pequeno município
alagoano de Chã Preta acaba de se tornar o centro de uma das pesquisas
históricas e arqueológicas mais importantes dos últimos tempos. Na última
quinta, 14, uma comitiva de peso — composta por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL), da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e representantes da Fundação Cultural Palmares —
desembarcou na cidade para dar início a escavações e estudos de campo que
prometem mudar o que sabemos sobre a resistência negra no Brasil.
Coordenada pelos professores
Onésimo e Levy, a equipe busca mapear o que pode ser um dos primeiros redutos
africanos do período colonial: o Mocambo
de Osenga.
A grande reviravolta histórica trazida por esta
pesquisa é a linha do tempo. Segundo os documentos oficiais, o Mocambo de
Osenga teria existido por volta de 1645. Isso significa que o reduto em terras
chã-pretenses é anterior à
própria Cerca Real do Macaco, o coração do Quilombo dos Palmares,
localizado na Serra da Barriga (União dos Palmares).
Se as evidências de campo
confirmarem os documentos, Chã Preta assumirá um papel de protagonismo inédito
no cenário nacional, redesenhando a rota da resistência e da diáspora africana
no século XVII.
A faísca que acendeu a pesquisa científica cruzou
o oceano. A base documental da expedição partiu dos relatórios do
expedicionário holandês John
Blaer. Recentemente, um mapa neerlandês raríssimo detalhando a localização
exata desse mocambo foi encontrado no acervo da prestigiada Biblioteca da Universidade de
Harvard, nos Estados Unidos.
O mocambo era liderado por
um chefe negro homônimo, Osenga,
que comandou a região por décadas e se consolidou como uma liderança crucial na
luta contra a escravidão no Nordeste colonial.
Mobilização comunitária
Mais do que um achado acadêmico, o início das
escavações em Chã Preta é fruto do engajamento e do sentimento de pertencimento
da própria comunidade local. A provocação para que as universidades e a
Fundação Palmares olhassem para o território partiu de uma união de forças de
entidades chã-pretenses, demonstrando o poder da valorização da memória regional.
Entidades
parceiras e incentivadoras do projeto:
·
Instituto Princesa dos Montes
·
Associação de Cavalhada de Chã Preta
·
Rádio Novo Horizonte FM
·
Instância Governabilidade Turística Serras e
Quilombos
·
Grupo Cultural Flor da Serra
·
Escola Estadual Izidro Teixeira
O que se espera agora, é que
os desdobramentos da pesquisa de campo prometem movimentar o turismo cultural,
a arqueologia e a educação na região nos próximos meses, colocando Chã Preta
definitivamente no mapa da história e do patrimônio cultural do Brasil.
