Marcos da resistência: Chã Preta/AL declara mocambos como patrimônios históricos
Em um gesto de profunda valorização da história e da ancestralidade, a Câmara de Vereadores de Chã Preta/AL, aprovou por unanimidade nesta quarta-feira, dia 22, o Projeto de Lei nº 08/2025, que declara os antigos Mocambos de Osenga, Velho Palmares e Andalaquituche como Patrimônio Histórico Material e Imaterial do Município.
A decisão, considerada um
marco para o povo chã-pretense e para a historiografia alagoana, reconhece
formalmente a importância desses assentamentos de resistência, cujas origens
remontam a 1645, totalizando 380 anos de história viva. Os Mocambos, parte integrante
do sistema do Quilombo dos Palmares, o maior e mais duradouro da história
colonial brasileira, agora recebem o devido destaque e proteção legal.
Resgate histórico e documental
A iniciativa é de autoria
do vereador, jornalista e escritor Ari Vasconcelos (MDB), um parlamentar
notadamente engajado na defesa da cultura popular e na valorização das raízes
históricas do homem do campo. Ao defender o projeto, Vasconcelos sublinhou o
robusto embasamento documental de sua proposta, citando fontes primárias e
trabalhos de renome na área.
O vereador baseou-se,
notavelmente, no Diário do capitão João Blaer de 1645, um registro holandês
crucial que detalha a paisagem e a presença dos mocambos na região durante o
período de invasões holandesas. Além disso, a iniciativa se apoia nas obras de
importantes historiadores e escritores brasileiros, como Edison Carneiro, Alfredo
Brandão, Gaspar Barleus, Pedro Teixeira, José Firmino e o escritor local Cícero
Vasconcelos, bem como em mapas e pesquisas de diversos especialistas e do
Conselho Ultramarino. Tais referências confirmam a localização estratégica e a
relevância dos mocambos de Osenga, Velho Palmares e Andalaquituche no complexo
de Palmares, que se estendia por vasta área da antiga Capitania de Pernambuco,
onde hoje está Alagoas.
A Força da comunidade e o
reconhecimento
O reconhecimento não foi
apenas um ato legislativo, mas uma celebração da identidade local. O advogado e
escritor Olegário Venceslau, autor de pesquisas aprofundadas sobre o Mocambo de
Osenga, comemorou a aprovação, qualificando-a como um "momento
histórico" e parabenizando a bancada legislativa pela sensibilidade e
atitude. O trabalho de Venceslau, que pôs luz sobre a existência e a
importância estratégica de Osenga, serviu de catalisador para a formalização do
reconhecimento.
Os mocambos, como Osenga
e Andalaquituche, eram as unidades de base, as pequenas aldeias que formavam o
grande Quilombo dos Palmares. Sua existência em Chã Preta ressalta o papel do
município como um corredor de resistência e um ponto estratégico fundamental
para a sobrevivência e expansão de Palmares.
Próximos passos: A Sanção
do Executivo
Com a aprovação unânime
na Câmara, o Projeto de Lei segue agora para o Poder Executivo Municipal. A
expectativa é que o prefeito Maurício Holanda (MDB) sancione a Lei,
concretizando o título e garantindo a proteção e a promoção desses bens
culturais e históricos inestimáveis.
Entende Olegário que a
sanção do projeto abrirá caminhos para políticas públicas de preservação,
educação patrimonial e fomento ao turismo histórico-cultural, permitindo que as
gerações atuais e futuras de Chã Preta e de todo o Brasil compreendam a
profundidade da resistência negra e a riqueza da sua herança na região. A
história dos mocambos de Chã Preta é, agora, oficialmente, um patrimônio a ser
cuidado, valorizado e contado.