Resgate ancestral: Pesquisadores iniciam buscas pelo Mocambo de Osenga em Chã Preta
Expedição arqueológica investiga vestígios de um dos aldeamentos negros mais antigos do Brasil, datado de 1640; localidade pode se tornar Patrimônio Histórico de Alagoas
O solo da Zona da Mata alagoana começou a ser
oficialmente percorrido nesta quarta-feira (21) em busca de respostas sobre um
capítulo fundamental, porém silenciado, da resistência negra no Brasil. Uma
equipe multidisciplinar, composta por arqueólogos e pesquisadores da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL) e representantes da Fundação Cultural Palmares,
deu início aos estudos de campo para localizar e documentar o Mocambo de
Osenga.
Diferente de outros
núcleos de resistência que surgiram no auge do período colonial, os registros
cartográficos apontam que Osenga foi estabelecido em 1640. Segundo o
escritor e advogado Olegário Venceslau, autor de uma obra recente sobre
o tema, o mocambo foi fundado por negros de etnia Bantu, originários dos
reinos do Congo e de Angola.
Esses homens e mulheres
teriam chegado ao Brasil nas primeiras levas de navios tumbeiros, entre meados
do século XVI e o início do XVII. A localização estratégica descrita em mapas
antigos situa o aldeamento entre os riachos Paraibinha e Jundiá, em
terras que hoje pertencem ao município de Chã Preta.
Do Esquecimento ao
Patrimônio
O que antes era um tema
restrito a círculos de historiadores locais e tradição oral, ganhou força no
final do ano passado. Uma mobilização de entidades civis de Chã Preta buscou
dar visibilidade à história de Osenga, atraindo o olhar de órgãos federais e
estaduais.
Atualmente, o projeto
conta com o suporte técnico e institucional de três grandes pilares: UFAL:
Responsável pela pesquisa científica e escavações arqueológicas; IPHAN:
Atua na análise técnica para a preservação dos vestígios materiais e Fundação
Palmares: Focada no reconhecimento da memória e da identidade quilombola e
cultural.
"Osenga não é apenas
um sítio arqueológico, é a prova material de uma resistência que precede muitas
das estruturas que conhecemos hoje", afirma Olegário Venceslau.
Próximos Passos
Com o início das
incursões terrestres, a expectativa é que a coleta de evidências — como
fragmentos de cerâmica, ferramentas ou alterações na topografia do terreno —
fundamente o processo que tramita nos órgãos de cultura. O Mocambo de Osenga
está na iminência de ser oficialmente reconhecido como Patrimônio Histórico
e Cultural do Estado de Alagoas, garantindo a proteção da área e a
preservação da memória dos antepassados bantu na região.